Qual a diferença entre Champagne, espumante e frisante?

Basta chegar o fim do ano ou ter um bom motivo para comemorar para que surja o pretexto para estourar a rolha e ver borbulhar um delicioso...champagne? Ou seria espumante? Ou seria um Asti, ou um Prosecco?…Calma! Nós da PASO temos o compromisso de te ensinar o melhor da vida e isso inclui a habilidade de distinguir o que vai na sua taça. Pois bem, existem sim diferenças entre champagne, frisante e espumante e é importante lembrar que, ao confundir as bebidas, você pode estar ofendendo um francês patriota ou um italiano orgulhoso. Essa é uma dúvida comum para os iniciantes do mundo do vinho e é facilmente resolvida com uma explicação sobre o processo de fabricação (ou vinificação) de cada uma delas e, por que não, uma pequena volta ao mundo, já que vários países têm uma “releitura” da famosa receita francesa de champagne! Então vamos lá:

Champagne: o que é e da onde vem?

É um vinho fermentado naturalmente, produzido exclusivamente na região de Champagne, no nordeste da França. Apenas as garrafas dessa área podem ser chamadas de Champagne, então, atenção ao rótulo. Além da localização geográfica, existem outras regras: só podem ser usadas uvas chardonnay, pinot noir e pinot meunier na composição. 

O método tradicional, também chamado de clássico ou de champenoise, é composto por duas fermentações - a primeira em tanques e a segunda já na garrafa. A primeira etapa é chamada de fermentação alcoólica e é muito semelhante à dos vinhos comuns, sem a presença do gás carbônico. É feita em tanques ou barris de carvalho, dependendo do produtor. A segunda fermentação acontece já na garrafa com a adição de açúcar e fermentos à mistura, que descansa de um a três anos, de acordo com a complexidade da bebida, o que justifica o valor diferenciado de algumas marcas. É claro que existem vários outros detalhes de fabricação, mas isso nós te contamos na sequência. 

E o frisante?

É um vinho fermentado apenas uma vez e que gera pouco gás carbônico neste processo. Pode parecer mais suave ao paladar, pois tem apenas metade da quantidade do gás presente nos espumantes e também bem menos espuma (ideal para beber e menos recomendado para fazer bonito no pódio). O lambrusco, frisante produzido na Itália, é um bom representante da classe. 

Tá, e espumante então, o que é espumante?

É a bebida produzida em todos os outros lugares do mundo, que não em Champagne. É obtida por meio de duas fermentações, sempre com uvas viníferas, que são as utilizadas na produção de vinhos finos. A primeira fermentação gera o vinho base - bebida seca e sem gás carbônico - e a segunda é quando surgem as borbulhas. Os principais processos de fabricação são o Champenoise, ou conhecido como Tradicional ou Clássico, e o método Charmat. No primeiro processo, a segunda fermentação do vinho base acontece dentro da própria garrafa. Já no método Charmat, a bebida é obtida por meio de uma produção um pouco diferente, com a segunda fermentação dentro de tanques de aço inox. No fim, os dois métodos recebem uma mistura que se chama Liqueur d`expédition (Licor de expedição). Esse é o processo que vai caracterizar o tipo do espumante: brut, sec ou demi sec. Com exceção da região de Champagne, na França, todos os lugares do mundo que produzem essa bebida devem chamá-la de espumante. 

Conheça os representantes dos principais países produtores:

A França e o Champagne

Desde 1927, só recebe este nome a bebida produzida na região francesa de Champagne-Ardenne, que ocupa apenas 32 mil hectares. Bem pequena se comparada à região portuguesa do Douro, por exemplo, maior e mais antiga, pois foi delimitada em 1756 e tem 250 mil hectares.  A capital da região do champagne, Épernay, é repleta de histórias e turistas interessados na arte de produzir esse vinho tão especial. Sem mais especificações, o champagne produzido é feito obrigatoriamente à base apenas das uvas Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier.

Quem visita a região, logo nota que tudo tem um porquê e uma razão de ser quando o assunto é fabricação de champagnes. A maioria dessas descobertas foi feita pelo monge beneditino Dom Pérignon (o nome soa familiar?) com a ajuda de Dom Ruinart, que em 1670, revolucionou a ‘indústria’ da bebida. Num esforço para domar os vinhos que explodiam as garrafas durante a fermentação, ele chegou à composição ideal de uvas para atingir a harmonia de sabor e textura perfeitas, além de ter conseguido obter um sumo cristalino, ao realizar a prensagem das uvas pretas separadamente.

A embalagem de champagne também é de grande importância e foi pensada por Pérignon. Já que a segunda fermentação acontece dentro da garrafa, ela precisa ser espessa o suficiente para aguentar a pressão e ter um lacre e rolha de cortiça que contenha o líquido da maneira correta. A armazenagem, feita em profundas adegas escavadas no solo, hoje galerias com vários quilômetros de extensão e usadas por todos os produtores, permitem o repouso e envelhecimento do champanhe a uma temperatura constante.

Outra figura importante na história do champagne foi Nicole Ponsardin, a viúva de François Clicquot (sim, ela criou a Veuve Clicquot!). Ela (ou seu chefe de adega, dependendo de quem está contanto a história) desenvolveu um método para retirar o fermento da garrafa e deixar a bebida límpida e clara como a que bebemos hoje em dia. Antes dessa inovação, o champagne tinha um leve gosto de levedo e uma coloração bem mais opaca e turva. 

O processo comum de fabricação leva ao menos dois anos e o champagne mais complexos e especial pede cerca de cinco anos de cuidados. As garrafas são estocadas nos crayères, que são os túneis cavados no solo de giz da região e que mantêm a temperatura ideal necessária para a bebida. A casa Moët et Chandon, por exemplo, tem cerca de 28 km de túneis, onde milhares de garrafas estão armazenadas. 

Existem seis classificações de champagne, de acordo com o teor de açúcar - ou “licor de expedição” - adicionado na segunda fermentação, mas os mais populares são o Demi-Sec e o Brut. As outras quatro são: Doux (doce), Sec (seco), Extra-Sec (Extra-seco) e Extra-Brut (Extra-bruto). Existe também a versão Nature (Pas Dose) que leva de zero a 3 gramas de açúcar por litro. Confira a tabela: 

  • doux (doce) – mais de 50 gramas de açúcar por litro
  • demi-sec (meio seco) – 32-50 gramas de açúcar por litro
  • sec (seco)– 17-32 gramas de açúcar por litro
  • extra sec (extra seco) – 12-17 gramas de açúcar por litro
  • brut – menos de 12 gramas de açúcar por litro
  • extra brut – 0-6 gramas de açúcar por litro

Rigidez e controle francês

O nome Champagne é protegido por uma rigorosa Denominação de Origem - a AOC - Appellation d'Origine Controlée, equivalente à DOC utilizada em Portugal. No entanto, essa informação não está nos rótulos da bebida. O rigor para usar o nome Champagne é tanto, que se basta. O mesmo só acontece com a região de Cognac e a bebida homonima, também na França. 

Outro fato curioso que demonstra a importâcia da bebida para os franceses foi o acordo selado com a comuna de Champagne, com 660 habitantes e 28 hectares, situada no cantão de Vaud, na Suíça. Eles tiveram de renunciar o nome de Champagne nos vinhos produzidos (não espumantes) no território, segundo um acordo internacional entre a Suíça e a União Europeia em Dezembro de 1998.

A Espanha e suas Cavas

Cava Freixenet

Cavas são os espumantes produzidos na Espanha, principalmente na região da Catalunha e Penedés, onde se concentram por 99% da produção do país. O termo vem do grego, usado para designar um vinho de alta procedência e significa “caverna” em latim, por ser o local usado para a produção e armazenagem das Cavas desde 1872, quando foram criadas por Josep Raventós. 

A inspiração veio da necessidade, já que uma praga havia devastado as vinhas da região de Penedès, sobrando apenas uvas brancas para contar história. Com base no sucesso da França, Raventós decidiu fazer a mesma receita, chamada de champaña, termo proibido atualmente. 

Suas variações são: brut nature, brut (extra seco), seco, semisec e dulce. De acordo com as leis de produção espanholas, somente as uvas Macabeu, Parellada, Xarel·lo, Chardonnay, Pinot noir, e Subirat podem ser usadas. 

Na Espanha também tem Txacoli

Txackoli ou Chacolí, é a versão ‘selvagem’ dos espumantes espanhois. Geralmente de produção caseira até os anos 1980, a bebida é um vinho branco muito seco e com baixo teor alcoólico, produzido nas regiões de Cantabria, Basque e Burgos. Existem versões rosé e tinta, mas a mais comum é de uma cor clara próxima do verde. O desafio, além de pronunciar o nome corretamente, é servir a bebida em taças finas de uma grande altura sem errar a mira. Para acompanhar, peça os famosos pintxos ou pinchos, aperitivos geralmente presos por palitos de dentes para beliscar. 

O Prosecco italiano

Prosecco Italiano

A Itália é uma grande produtora de espumantes, cada um com sua característica especial e particular. Vale a pena provar cada um deles e construir uma memória para saber o que vai bem ou não de acordo cm seu paladar. Bom, começando com o Prosecco, que é o representante da região do Veneto, no norte e nordeste do país. O termo já foi utilizado para designar a uva Glera, usada na fabricação da bebida, mas atualmente somente os espumantes produzidos no Veneto ganham essa denominação, assim como o Champagne. O método de fabricação usado é o Charmat, que utiliza tanques e não a garrafa para fazer a segunda fermentação. 

Para quem prefere sabores adocicados, a Itália oferece o Asti

É um vinho espumante adocicado, com sabor que lembra o damasco, almíscar e a uva Moscato, sua principal composição. De baixo teor alcoólico, é produzido pelo método Charmat, sendo que a segunda fermentação não é feita com o vinho pronto e sim com o mostro, que usa baixas temperaturas para interromper o processo e garantir um sabor doce único. O Asti é o espumante que representa a região do Piemonte, no norte da Itália e fronteira com a França. 

Espumante Champenoise na Itália vira Franciacorta

Este espumante pode ser considerado a resposta ao Champagne francês, já que é o único a usar o método clássico de produção - o champenoise. Isso significa que a fermentação final da bebida é realizada dentro da garrafa, em um processo que dura no mínimo um ano e meio. 

É produzido com as uvas Charnonnay e Pinot Blanc ou Pinot Noir, cultivadas nas colinas da província de Brescia, na Lombardia e segue as regras DOCG - Denominação de Origem Controlada e Garantida. A designação DOC foi obtida em 1967 e, desde 1995, a tem classificação DOCG aplicada, exclusivamente, aos vinhos espumantes da região.

Lambrusco, o italiano mais famoso por aqui

O nome desse vinho frisante (e não espumante) vem da uva usada em sua fabricação. Ao contrário do Champagne, seu método de fermentação final utiliza tanques de inox e não a própria garrafa. A principal região produtora é a Emília-Romana, no norte da Itália e sua classificação varia de secos a doces, podendo ser tinto, branco ou rosé.  

O Sekt da Alemanha

Sekt Alemão

Os representantes da categoria espumante na Alemanha são chamados de Sekt. A maioria é produzida pelo método Charmat, mas cerca de 5% da produção nacional utiliza o método tradicional, assim como o Champagne. 

As melhores versões utilizam as uvas Riesling, Pinot blanc, Pinot gris e Pinot noir, sendo que essas garrafas geralmente são consumidas localmente e não chegam a ser exportadas. A produção do Sekt data de 1826, quando Georg Kessler, que trabalhou na Champagne House Veuve Clicquot, fundou sua própria empresa. Os nomes dados para a bebida na época variavam entre Mousseux, Sect e Champagne, mas o Tratado de Versalhes proibiu o uso do último em 1919. Sekt, um nome de uso informal na Alemanha, ganhou popularidade e é usado até hoje. 

A Bairrada portuguesa

Em Portugal, o Espumante é a bebida usada em comemorações e feriados nacionais para celebrar. Produzido em diversas regiões do país, a bebida mais célebre vem de DOC Bairrada, ao sul da região produtora do Vinho Verde, na província do Minho, no noroeste de Portugal. O rótulo deste espumante tem que obrigatoriamente ter o selo de VEQPRD (Vinho Espumante de Qualidade Produzido em Região Determinada) e somente as regiões do DOuro, Ribatejo, Minho, Alentejo e Estremadura podem produzi-lo. 

Até na África do Sul temos espumante

Com uma ótima tradição vinícola, este país africano surpreende sempre. O espumante produzido na região usa o Método Cap Classique ou MCC que segue a fermentação tradicional, feita na garrafa. As uvas Sauvignon blanc e Chenin blanc são as escolhidas para a fabricação, mas alguns exemplares com Chardonnay e Pinot noir também surgem no mercado. Outra inovação é o uso da uva Pinotage para produzir espumante rosé, pelo método Charmat. O resultado é uma bebida bastante frutada. 

Espumante rima com calmante. 

O espumante tem grandes quantidades de polifenóis, antioxidantes que ajudam na liberação do óxido nítrico. É essa substância que atua no relaxamento dos vasos sanguíneos, baixando a pressão e, consequentemente, ajudando a acalmar os nervosinhos. 

Outra substância presente nos vinhos espumantes é a tiramina, responsável por gerar a famosa serotonina, que nada mais é do que um neurotransmissor que dá origem a sensação de bem-estar e alegria. A bebida também é rica em potássio, magnésio e gás carbônico. Então, depois de escolher qual será o conteúdo da taça, faça um brinde à sua saúde e boa viagem no mundo das rolhas!